| NOVO TEXTO DO NOSSO ALMANAQUE | ||
| ALMANAQUE COM AULAS DE FILOSOFIA Nº 2 O que não é pensar? Declamadores músicos versavam dos feitos do mundo em tão grandiloquentes figuras que, devassadas pelo tempo e pela filosofia, ficaram em literatura, narrativa, poesia, enquanto os argumentos elaborando realidades, grandes e cotidianas, costuraram o que chamamos de “pensar”. Inicialmente registro da ação, criativo, e até mesmo escrito, pensamento acarreta a expressão, manifesta a compreensão e uma forma de existir. Parmênides, filósofo do período pré-socrático, chega a firmar a identidade entre Ser e Pensar. Pensar gera estados de espírito e sentimentos, como a própria angústia. Um privilégio humano. Ortega Y Gasset, filósofo espanhol de certo talento literário, e expressiva incidência na sua sociedade espanhola ao longo de seu século XX, caracterizava as ideias em ação, o pensamento. Bernard Shaw, autor de peças teatrais e orador inglês, diz das ideias que elas são como pulgas, pulam de uns para outros, mas não mordem a todos. Também esclarecia que mudar de opinião não enseja qualquer vergonha, apenas não ter ideias para mudar é que é vergonhoso. Se um belo acionar de ideias terá o poder de articular as vergonhas, curá-las de algum modo, estampá-las adequadamente na própria face ou mudar dessas com outras condições humanas, já é uma questão bem ateniense, daquela primeira academia, a do discípulo de Sócrates, o chamado Platão (que significava isto: “costas-largas”). Pois Platão carregava na sua mente brilhante não poucas iluminações, pela prática de confrontar, inclusive, ensinamentos como os de Parmênides e de Heráclito (já então frequente e classicamente contrapostos?). Heráclito tratava a opinião dos homens como joguetes infantis, mas também lhe chamava a atenção o engano dos homens no conhecimento das coisas visíveis, quando jovens catando-lhes os piolhos (hoje “pulgas”) declaravam abandonar de tudo quanto vissem e pegassem, mas carregar consigo o que não fosse visto e pego. Assim o pensar frequentemente se apresenta no domínio da visão, como nestas e naquela cultura grega e “ocidental”. Mas o que é o pensar? Se não me perguntam, não sei o que é pensar, mas se nos endereçam tal questionamento, pode ser que logremos “conceber” o que seja. Embora seja feio usar os outros, parece que fomos mesmo feitos para dar o que pensar. Muito bem. Não que isso não dê trabalho. Pelo contrário, é só o que dá. Principalmente se você for um humanista, e botar essa vida humana efetivamente acima do “prêmio” acumulado de 100 milhões na loteria, com as listas de possíveis conversões em bens para simular o crucial senso de proporção das coisas (edifícios, carros e tudo os quantos se podem comprar de cada já com o “rendimento” mensal de uma tal fortuna). Nada contra quem faça a sua fezinha, afinal nos valemos de todos os meios possíveis para pensar, apesar da palavra ser o grande veículo, o depósito e a vitrine das ideias e opiniões nossas de cada dia. Nela é que logramos modelar e até testar melhores planos, tanto quanto opinar, manifestar este sintoma das próprias ações e disposições de incidir sobre a nossa vida humana, que tem portanto o seu valor. Pensando bem, nos valemos de boas ferramentas para pensar, da melhor maneira possível, que dizemos ser crítica quando estas coisas todas se encaixam de maneira muito consistente e consequentemente expressiva, conforme muitas explicações. Por exemplo, quando se escreve uma crítica a uma obra estabelecem-se parâmetros para a avaliação de seus valores expressivos, se declara o que nela há de notável a respeito de um ramo de atividades, de um campo dos conhecimentos. Ver a gota num mar sem deixar de notar suas correntes e posições, vendo estes mares na própria gota. A abrangência de uma tal reflexão sobre os trabalhos humanos do pensamento a torna crítica e potencialmente filosófica. No torvelinho dos trabalhos, acordamos projetando os pequenos movimentos, retomamos pé de uma situação, ajustando equilíbrios, a caminho, agitando o samba. Algumas ferramentas saturam e passamos a outras, alguns nos alcançam terceiras e quintas ferramentas, também à medida em que esperam nos encorajar com elas, ainda que o sentido pejorativo da manipulação seja infelizmente a regra em nossa história, com umas chefias capazes de colocar a alienação a serviço da exploração pisando e oprimindo assim nas condições ambientais e de trabalho. Ao produzirmos símbolos, carregados de ideias, que mediam nossa ação no mundo, também estamos produzindo ferramentas, tecnologias de ponta(s) muito precisa(s), cuja consistência lógica é sempre muito apreciada pelos ditos intelectuais, como nós mesmos apreciamos a consistência nas ações de nossos chegados, contemplando os entes, as aparência e as questões. Você pode desenvolver narrativas para refletir consistências e inconsistências na sintomatologia de uma concepção, de um pensamento crítico, ou desenhos para apurar os olhares sobre estes mundos e fundos, mas uma coisa não exclui a outra, como sabem artistas a construírem certos sentidos problematizando: entre o Ser e o não ser, me asseverava um, o Vinícius Martins, “eu prefiro a questão”. Viabilizar questões pode ser uma forma de cultivar raciocínios, mas nem sempre nos inclinamos para uma curiosidade, uns interesses. |
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