CONTRA A NATUREZA HUMANA

    CONTRA A NATUREZA HUMANA


    Ethon Amílcar Secundino da Fonseca



    Os positivistas tinham os seus heróis, seus santos e seus guerreiros. Mas então vieram os críticos, que os desmontaram ou abafaram temporariamente, ou não. Os
    heróis foram os primeiros a morrer, mas ainda teríamos nossos referenciais humanos e expoentes, além de intermináveis versões, interpretações, mitos, textos e contextos. Roçaram a metafísica da inércia do pensamento, infiltrando-se no mais chulo linguajar, polarizando progressistas e conservadores, portando mais rótulos que caixas de enlatados gerando bons gostos e grandes desgostos. Eis que os positivistas tinham razão: precisamos de chavões científicos, esquemas todos – abrangentes, ordens de progresso, religião, metafísica, barba, cabelo e bigode. Formas clássicas, equilíbrio e harmonia, medidas correntes e recorrentes, pensamento expressivo, problematização de fins e origens, leitura acurada ou escuta apurada, exercício prático em curso, tudo na maior consistência lógica, na moral, nos selos de ética da Qualidade. Abrindo alguns estudos de caso, além dos positivistas, digo. Abrindo a cabeça à fantasia e imaginação.
    Confesso aliás que outra tendência-vertente, corrente-energia, forma-força, linhagem-descendência, esquema de trabalho – osso de ofício que nos inspira e comove é romântica, naturalista, cínica renascentista. Pode ser contratualista, mas sem visões uniformes da natureza (quanto mais da humana). Pode ser cínica, mas ao menos tirando onda com as cachorradas que nos deixam mordidas na veia, que tanta amizade perdida não tem mesmo graça (também sendo perigoso deixar tanto guerreiro ao léo, que dirá desses mais endiabrados). Pode se arvorar a ter os pés no chão, mesmo cavalgando motores de pensamentos levemente inerciais. Pode esperar e pretender a compreensão da ciência, esta nova redentora da humanidade. Pode até ser cobiçada pela juventude, mas como somos generosos, nós lhe a deixamos, e até fornecemos, se for o caso, para convincentes grupos de afinidade.
    Se José de Alencar é grande, será por mostrar o quanto “o guarani” é maior que ele.
    Os heróis modernos são magos de mãos ágeis, cadeias e cidades penitenciárias inteiras. Lidam com crenças em planos muitos vastos e em níveis subatômicos. Céticos, encontram na religião o seu ambiente. Jogadores, são mais detalhistas que a burocracia. Frios, são capazes de gelarem as veias de multidões. Já estão no giBi. Alguns leitores já não se satisfazem com as migalhas da teledramaturgia.