FESTA DE NAVEGANTES

    FESTA DE NAVEGANTES
    por W. Morales Aragão, janeiro de 2008
    OGHUM – Oficina Geral de Humanidades

    A Festa de Navegantes de Porto Alegre é um evento social dos mais polissêmicos. Apresenta significados tão diversos quanto expressivos do caráter multifacético da sociedade atual. Pretende-se aqui abordar alguns, buscando de forma sintética e não exaustiva a riqueza do fenômeno. E esse, de qualquer modo, não deixa de apresentar os conflitos e acomodações das tendências sociais que dinamicamente o produzem e o marcam com o quadro atual de suas correlações de forças.
    Em primeiro plano fenomênico tem-se as religiosidades. A programação oficial das hierarquias religiosas cristã católica e das diversas linhas afro-brasileiras; as construções populares rebeldes às orientações dos hierarcas; a massa da religiosidade difusa; e o deísmo mobilizado dos que crêem em alguma divindade ou ente sobrenatural, mas não seguem nem aprovam nenhuma organização religiosa.
    Cabe destacar nesse tópico o sincretismo entre o catolicismo e a matriz africana, característico da historicidade brasileira. E, no particular da Festa de Navegantes, a dimensão feminina das duas tradições, na fusão das imagens da devoção mariana, Nossa Senhora dos Navegantes, e da orixá das águas, Iemanjá. Diversos estudos já demonstraram a força da feminilidade no cristianismo primitivo, com as imagens marianas assemelhando-se a Ísis egípcia, cujo culto era muito divulgado nas camadas majoritárias da Roma imperial. Assim também, o poder das hierarquias femininas nas religiões de origem africana, sobretudo na realidade baiana.
    Além disso, há a resistência e a rebeldia da religiosidade popular contra as hierarquias religiosas, mormente ante as posições elitizadas adotadas por essas. Assim, por exemplo, a Festa de Navegantes é a maior festividade unificada de cunho religioso em Porto Alegre. Conquistou inclusive a única data legalmente permitida para feriado municipal na capital do estado. E, paradoxalmente, não é essa devoção a padroeira da cidade, disputa aliás dentro do campo mariano, já que a devoção padroeira, segundo a hierarquia católica, é a da Madre de Deus.
    Um segundo plano de abordagem desse fenômeno privilegiado, não inferior em relevância a nenhum outro ( o que é, dada a marca pós-moderna da paralogia, a condição geral dos diversos planos), é o da produção atual das subjetividades em Porto Alegre. A presença marcante do contingente feminino da população em eventos de grande escala; a festivalização da economia no contexto da sociedade de espetáculo; a expressão inarredável das maiorias sociais através de uma democracia parcial travejada pelas diversas redes de dominação sócio-políticas. E, em simultâneo, a disputa pelo uso da cidade em meio à urbanização crescente e à desindustrialização, ambas sem planejamento potente e sem compensações efetivas, como é típico da periferia capitalista.
    O terceiro plano que aborda-se nesse espaço, assim encerrado sem conclusões maiores, é o da historicidade. Recordando os já pesquisados usos múltiplos do recurso à festa na subjetividade brasileira, aponta-se para a preservação da memória, tão combatida pelo presente eterno do capitalismo neoliberal. Navegantes proclama o trabalho não alienado, que identifica e dignifica as pessoas; o trabalho dos navegadores que gerou esse Porto Alegre; que fez bem sucedido um acampamento de colonos sem-terra em trânsito para um assentamento estatal no século XVIII; que recorda a dimensão estratégica dos portos e águas contra a hipostasia dos xópins.
    Holística, a Festa de Navegantes exibe os sistemas materiais e ideológicos que, combinados, produzem-na como fenômeno incomum da práxis local.